Resumo indicativo da obra “Fedro” de Platão


Referência Bibliográfica: PLATÃO. Fedro (ou Do Belo). In: PLATÃO. Diálogos III. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2015. p. (35-113).

Sócrates encontra Fedro logo após este último ter presenciado um discurso de Lísias acerca do amor. Os dois primeiros então decidem conversar a respeito do referido discurso. Sócrates nota que Fedro tem algo escondido em sua mão esquerda, que estava sob seu manto. O objeto escondido era o próprio discurso de Lísias. Os dois querem conversar a respeito do discurso. Mas, antes, eles decidem falar de um mito. Sobre esse mito, diz Sócrates que de fato os sábios não acreditam nele. Narra o mito, segundo Sócrates, que uma rajada de Boreias teria matado Orituia, enquanto esta brincava com Farmaceia. Ele também diz que as pessoas costumam dizer que Orituia foi sequestrada por Boreias.

Após isso, Fedro inicia a leitura. O discurso de Lísias é uma defesa da relação amorosa com um não amante em contraposição ao relacionamento com alguém que está apaixonado. Um dos argumentos em defesa dos não amantes diz que esses não buscam a aprovação de todos em seu relacionamento, ao passo que os apaixonados exibem àqueles que não se esforçaram o bastante para conquistar o que eles conquistaram, o seu novo amor, de maneira orgulhosa. Finalizada a leitura do discurso, ambos o elogiam, mas Sócrates, após os elogios, diz que o discurso de Lísias explana a mesma coisa de diversas formas e que ele já teria ouvido discursos melhores de outros autores, como Safo ou Anacreonte, ou alguns autores de prosa. No entanto, Sócrates acrescenta o fato de que o não amante está mais são que o amante, fato baseado no discurso de Lísias que o primeiro concorda, juntamente com Fedro, e fato este que deve ser levado em conta no debate do tema abordado.

Mais à frente, Fedro pede a Sócrates que faça um discurso a respeito do tema. Sócrates afirma que não é capaz de fazer um discurso melhor que o de Lísias, e que, por isso, não quer discursar a respeito do tema. Fedro insiste e, após a insistência, consegue convencer Sócrates a falar sobre o assunto. Então o discurso de Sócrates diz, em suma, o seguinte: antes de uma investigação sobre algum assunto, deve-se bem definir o objeto da deliberação. Assim, antes de investigar se é melhor a amizade com o apaixonado ou com o não apaixonado, deve-se definir o que é o amor. Para distinguir o amante do não amante, Sócrates diz que o homem é governado por dois princípios, o desejo por prazeres e o outro, que é a opinião adquirida que persegue o que é melhor. Quando o princípio da opinião adquirida domina sobre os desejos, temos o autocontrole. No entanto, quando é o princípio dos desejos que predomina, Sócrates afirma que se cai nos excessos. Sobre o amor, ele diz que é um desejo que se sobrepõe à opinião racional, que busca a fruição da beleza e que se empenha na busca pelo correto. Com relação àquele que está apaixonado e é escravo do prazer, Sócrates diz que ele buscará tornar o amado mais fraco e o mais agradável possível para si, fazendo o amado ser uma máxima fonte de prazer para o amante. Este último manterá o amado longe de companhias vantajosas, do que resulta que um homem apaixonado não é um bom companheiro para quem quer se desenvolver intelectualmente. Além disso, aquele que está apaixonado tornará o amado efeminado. Sobre os bens e posses do amado, Sócrates diz que o amante tem como desejo privá-lo daquilo que o amado possui, tanto familiares e amigos quanto riquezas. O amante também desejaria ter o amado para si durante a maior parte do tempo, daí a preferência pelo amado estar solteiro, sem filhos e sem lar.

Em resumo, Sócrates afirma que é melhor ao amado relacionar-se com um não amante racional ao invés do apaixonado, pois este último lhe trará muitos males. Finalizado o discurso de Sócrates, mais à frente ele diz a Fedro que seu comentário a respeito do amor foi tolo e impiedoso. Ele começa argumentando que se Eros é um deus ou algo divino, certamente ele não é mau, o que o seu discurso e o de Lísias afirmam por consequência lógica. Sócrates também afirma que os discursos dele e de Lísias foram vergonhosos.

Agora, Sócrates passa a discursar em favor dos apaixonados, e ele afirma, em defesa destes últimos, que a loucura é a mais benéfica quando enviada como um presente dos deuses. A loucura seria o estado de espírito em que se encontram os apaixonados. E ele continua a defesa, ao afirmar que a loucura, que tem origem em um deus, é superior ao senso, que procede do homem. Ele busca demonstrar que a loucura que toma conta do apaixonado é dada pelos deuses para a boa fortuna dos homens. Sócrates inicia a demonstração dizendo que a alma é não gerada e imortal. Ele também afirma que, exceto os deuses, todo composto de alma e corpo é mortal. Após isto, ele fala sobre a causa de a alma perder as asas. Enquanto as qualidades da beleza, sabedoria e bondade fazem crescer as asas da alma, vileza e vício fazem-nas diminuir e desaparecer.

Mais adiante, Sócrates fala sobre a vida dos deuses, das almas no Céu e na Terra, e também sobre a loucura mais nobre, que é a loucura do amante da sabedoria, ou filósofo, que, segundo ele, é o único que possui asas na alma. Ele também fala sobre uma região que ele denomina “além do céu”, uma zona que é visível somente para o intelecto; fala também sobre a reminiscência, que é o lembrar das ideias vistas quando a alma viajava com o deus. Ainda no mesmo discurso, ele fala sobre a loucura do amante da beleza, que ele chama de Amor. Sobre o Amor, Sócrates fala a respeito de como se comportam os seguidores de Zeus e de outros deuses quando estão apaixonados.

Na sequência de seu discurso, Sócrates fala sobre a constituição da alma: esta é dividida em três partes, tendo duas partes a forma de cavalos, e a outra forma de auriga. Um cavalo é bom e o outro é mau. Quando o auriga contempla a visão de seu amado, o cavalo bom é obediente e não salta no amado, enquanto que o outro cavalo salta em direção à frente incitando seus companheiros a abordar seu amor sugerindo a este os prazeres do sexo. Ele continua a falar sobre a relação da alma com seu amado, detalhando a relação dos dois cavalos e do auriga com seu amor; também discursa sobre a reação do amado com relação ao apaixonado. Sócrates termina seu discurso falando das benesses da “loucura do amor”, ao dizer que mesmo numa alma não filosófica podem nascer, graças a esse amor, asas tanto no apaixonado quanto no amado. Contudo, a respeito da afeição do não-amante, ele diz que a consequência da relação com este seria que a alma do amado vagaria nove mil anos na Terra, e se converteria em insensata, após este período, sob ela.

Finalizado o discurso sobre o Amor, Sócrates e Fedro falam positivamente sobre ele e passam a discorrer sobre os políticos e seus escritos. Mais à frente, Sócrates fala sobre as cigarras e seus cantos e sua relação com as Musas. A partir dessa relação, ele diz que há muitas razões para as pessoas conversarem ao meio-dia ao invés de dormirem.

Na continuação do diálogo, os dois decidem conversar sobre o discursar e o escrever. De início, Fedro diz que não se deve saber a verdade e o nobre, mas apenas o que parece sê-lo. Sócrates decide examinar essa afirmação. Ele inicia esse exame analisando a natureza do discurso, se esta é uma arte ou não e se ela necessita do conhecimento da verdade para ser considerada uma arte. Ele afirma que o discurso é uma atividade que permeia todas as áreas do conhecimento, e não apenas os discursos nos tribunais. Sobre a retórica, ele diz que é uma atividade que busca tornar o parecido como igual. Sócrates conclui, a partir de uma argumentação, que a retórica não é uma arte, pois busca apenas a opinião ao invés dos fatos.

Agora, Sócrates quer avaliar os discursos dele e de Lísias a respeito do amor, o que neles têm de arte ou ausência de arte. Ele diz que os dois discursos são opostos entre si. Também lembra que o amor é um tipo de loucura divina. Então ele diz que nesses dois discursos sobre o amor há duas formas: a primeira é a visão conjunta numa ideia, que torna claro a partir de uma definição o que se deseja explicar; a segunda forma é aquela que divide as coisas por espécie, tentando não fragmentar nenhuma parte. Os dois também falam sobre coisas que deveriam estar presentes em um discurso, e Sócrates dá exemplos de coisas que os sofistas colocavam neles. Mas ele ainda duvida do caráter desta arte e, assim, decide analisá-la com a ajuda de Fedro.

Ele afirma que a retórica, ou arte do discurso, se assemelha à medicina, na medida que esta cuida do corpo, enquanto aquela cuida da alma. Também diz que Péricles, com a ajuda de Anaxágoras, inscreveu na arte da retórica conhecimento sobre os corpos e fenômenos celestes. Sócrates afirma que Péricles era o orador mais completo de todos. Sobre o objeto da retórica, ele afirma que é a natureza da alma. O estudante de retórica deverá conhecer todos os tipos de discurso e todos os tipos de alma, para aplicar, em cada tipo de alma, o discurso que o convença em certo assunto. O orador não precisará conhecer a verdade, mas apenas o que é convincente, o que Sócrates denomina probabilidade. Ele finaliza seu comentário acerca da arte do discurso com o fato de que, para ele, a perfeição na arte citada é a capacidade de dividir todas as coisas em classes e apreender cada coisa particular segundo uma ideia geral, considerando a variedade de caráter de seu público.

Mais adiante, Sócrates diz que falta discorrer acerca do escrever. Sobre a escrita, ele cita uma crítica do deus egípcio Amon à invenção do deus Thoth, no caso, a própria escrita: que essa invenção fará as pessoas aparentemente sábias, mas não verdadeiramente sábias, uma vez que deixarão de usar a memória e não serão capazes de compreender as palavras, que lhes são exteriores. A escrita apenas tem o poder de fazer lembrar aos que já conhecem o que está escrito. Ele também afirma que a escrita se assemelha à pintura, pois se limita a dizer sempre a mesma coisa. Mas, depois disso, Sócrates fala acerca de um tipo de discurso que é positivo, que é quando se emprega a arte da dialética a respeito dos temas do justo, do belo e do bom. Ele diz, por fim, que a pessoa que acredita que nenhum discurso escrito deva ser levado com muita seriedade, e que valoriza apenas o discurso sobre a justiça, a beleza e a excelência, essa pessoa é aquela que eles dois gostariam de se tornar. Sócrates finaliza seu discurso ao afirmar que aquele munido do conhecimento da verdade, que é capaz de defender o que escreveu e que é capaz de mostrar que as palavras escritas têm pouco valor, este deveria ser chamado de filósofo; enquanto que aquele que possui de mais valioso o que escreveu, e retira ou coloca frases em seu texto, movendo as palavras a seu bel prazer, deveria ser chamado de poeta ou autor de discursos ou de leis.

Deixe um comentário