Resumo indicativo da obra “Eutidemo” de Platão

Referência Bibliográfica: Platão. Eutidemo (ou Da Disputa). In: PLATÃO. Diálogos II. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2016. p. (173-235).

No início da obra, Críton questiona Sócrates com relação a um estranho com quem ele estava conversando. Sócrates responde que não havia apenas um, mas dois estranhos e questiona Críton com relação a qual estranho ele estava se referindo, ele responde dizendo que se referia à segunda pessoa sentada à direita de Sócrates, que esclarece que a pessoa era Eutidemo e o rapaz sentado à esquerda deste era o seu irmão, chamado Dionisodoro e que este participa de suas discussões.

Críton questiona Sócrates a respeito de onde eles são e qual saber professam. Sócrates responde afirmando que eles são da região de Quios. Com relação ao saber que professam, diz que além de serem bons lutadores de pancrácio, são fisicamente estupendos, e podem lutar com os novatos, pois além de possuírem capacidade para a luta com armas, também são capazes de transmitir essas habilidades mediante remuneração. Acrescenta que possuem competência para os debates nos tribunais, sendo capazes de ensinar os outros a proferirem e comporem discursos que possibilitam a vitória nos tribunais e, além de tudo, eles obtiveram a habilidade de refutar quaisquer argumentos, não importando se são verdadeiros ou falsos. A partir disso, Sócrates diz que queria aprender de Eutidemo e Dionisodoro essas habilidades, uma vez que afirmam que seria necessário pouco tempo para alguém tornar-se habilidoso com as mesmas coisas que eles.

Mais adiante, Críton questiona Sócrates a respeito do que ambos aprenderão com eles. Sócrates diz que contará toda a conversa que teve com Eutidemo e Dionisodoro.

Logo no início desta conversa, Sócrates responde à questão de Críton, dizendo que ambos conhecem tudo a respeito da guerra, formações de tropas etc., também são capazes de ajudar uma pessoa a obter reparação por alguma injustiça nos tribunais.

Sócrates achava que estes assuntos seriam o objeto a ser ensinado pelos dois, mas ele diz que ambos riram de sua fala e disseram que agora estas ocupações são secundárias, que agora ocupam-se primariamente da virtude e se consideram capazes de transmitir a virtude de modo superior a qualquer outra pessoa e de modo rápido. Sócrates fica fascinado com isto, e então ele questiona os dois sofistas se eles farão uma demonstração desse saber. Não só Sócrates, mas Clínias, Ctesipo e outras pessoas tinham se aproximado de Eutidemo e Dionisodoro querendo aprender sobre a virtude. Estes dois últimos disseram que estavam lá justamente para fazer tal demonstração a todos que quisessem ouvi-los.

No início do debate entre Sócrates e os dois sofistas, o primeiro pergunta aos sofistas se eles são capazes de ensinar a virtude tanto a uma pessoa que já está convencida que deve aprender com eles quanto para alguém que não acredita que a virtude possa ser ensinada ou porque não crê que eles dois são mestres dessa arte. Ele também pergunta se essa arte que eles ensinam é capaz de convencer alguém que a virtude possa ser ensinada e que eles podem ensiná-la melhor que todas as outras pessoas. Dionisodoro responde dizendo que a arte que eles ensinam tem como função justamente tudo isso que Sócrates questionou e que eles dois são os mais qualificados para estimular alguém à prática da Filosofia e ao exercício da virtude.

Com isso, Sócrates pede aos dois que persuadam Clínias, que é jovem, a buscar a sabedoria e praticar a virtude. Eutidemo responde que para eles não faria diferença, desde que Clínias respondesse às suas perguntas. Segundo Sócrates, o debate entre Clínias e os dois sofistas ocorreu mais ou menos assim: Eutidemo e Dionisodoro, de início, fizeram perguntas ao jovem para deixá-lo embaraçado. Sócrates considerou estas primeiras perguntas uma brincadeira dos sofistas, e pede aos dois para que façam a persuasão pedida por ele.

Além disso, Sócrates inicia um debate com Clínias; inicia com duas perguntas que ele mesmo considera tendo respostas óbvias. Clínias responde estas duas primeiras questões e, depois delas, Sócrates lhe pergunta se, das coisas que existem, quais são verdadeiramente boas. Sócrates diz que ser rico é uma coisa boa e o jovem concorda com ele; também concordam como coisas boas: ter saúde, ser atraente, ter bom nascimento, ser moderado, justo e corajoso e adicionam a sabedoria como sendo uma coisa boa. Dito isso, com a concordância de Clínias, Sócrates também elenca a boa sorte como uma coisa boa.

A partir de uma argumentação, Sócrates demonstra que sabedoria e boa sorte são a mesma coisa, ao dizer que a sabedoria produz a boa sorte para as pessoas. Ainda sobre a igualdade entre boa sorte e sabedoria, Sócrates pergunta a Clínias se ele pensa que teria melhor sorte nas mãos de um sábio ou de um ignorante, recebe como resposta que teria melhor sorte nas mãos de um sábio. Continuando as perguntas, Sócrates mostra que as coisas boas que eles tinham mencionado há pouco, sendo utilizadas com entendimento e sabedoria, constituem bens. Por outro lado, se estas mesmas coisas boas são norteadas pela ignorância, se tornam males. Por isso, nem as coisas boas nem as más constituem valor em si mesmas, mas dependem do seu uso. Ambos concluem que a sabedoria é um bem que deve ser buscado por toda pessoa que deseja ser feliz, também concordam em relação ao fato de a sabedoria ser ensinável.

Clínias, que era jovem, também diz que quer buscar a sabedoria com todas as suas forças. Sócrates, regozijando-se ao ouvir isso, pede a Dionisodoro e Eutidemo, com o intuito de instruir Clínias, que realizassem uma exibição a respeito de qual ou quais conhecimentos seriam necessários para tornar as pessoas boas, felizes e sábias.

Dionisodoro inicia a exibição dizendo que, como Clínias não era sábio ainda, e que todos desejariam que ele se tornasse um sábio, então todos queriam ver Clínias morto. Ctesipo entra no debate e diz que ele não quer ver Clínias morto. Após uma breve discussão entre Ctesipo e Eutidemo, Sócrates entra na discussão entre eles e diz a Ctesipo para aceitar o que os dois sofistas têm a dizer, mesmo se isto significar a destruição do jovem Clínias, desde que o resultado seja que tornem este último sábio.

Tanto Sócrates quanto Ctesipo se dispõem a serem cobaias do método dos dois sofistas.

Retomando-se o debate entre Dionisodoro e Ctesipo, com aquele questionando Ctesipo acerca da possibilidade de haver contestações. Com base na ideia de que ninguém fala o que não é, Dionisodoro afirma a impossibilidade da existência de contestações. Ctesipo não consegue retrucar esta afirmação, mas Sócrates entra no debate com Dionisodoro dizendo, de início, que já tinha ouvido esta argumentação em várias oportunidades e o questiona, perguntando se a pessoa ignorante não existe. O sofista confirma que não há pessoa ignorante. Então Sócrates o questiona se ele admitia a existência de algo chamado refutação.

Eutidemo entra no debate e diz que não existe algo chamado de refutação. Sócrates, com base nesta ideia de Eutidemo, questiona-o perguntando se como não há discurso falso nem pessoa ignorante, então também não existe o cometimento de um erro quando alguém faz algo. Eutidemo concorda com esta conclusão. Partindo deste último questionamento, Sócrates pergunta a Eutidemo então o que eles de fato se propõem a ensinar. Após uma breve discussão com Dionisodoro, Sócrates mostra a ele e a Eutidemo que seu argumento possuía uma falha. Ctesipo critica o discurso dos sofistas. Sócrates, então, os defende e inicia com Clínias um diálogo a partir de onde o discurso havia terminado, discursando acerca da busca da sabedoria e de qual tipo de conhecimento eles estão buscando. Eles concordam que este conhecimento deve ser a combinação entre o produzir e o conhecer como usar a coisa produzida.

Sócrates questiona Clínias acerca de se é a arte da elaboração dos discursos que deveria ser adquirida para as pessoas serem felizes; ele responde que não, argumentando que há elaboradores de discursos que não sabem usá-los. Sócrates concorda com este argumento e afirma que a arte dos elaboradores de discursos se assemelha ao encantamento de víboras e outros animais selvagens. Para ele, não é esta a arte que faria alguém feliz. Então Sócrates sugere que a arte do comando militar seria aquela que eles estão buscando. Clínias discorda, ao dizer que os militares dominam uma cidade, mas entregam-na aos políticos, uma vez que eles mesmos não sabem como usar o que capturaram. Sócrates concorda com o argumento do jovem.

Por um momento, Sócrates finda a apresentação a respeito do debate que tiveram com Clínias e os demais e volta a conversar com Críton que quer saber de Sócrates se eles tinham encontrado a arte de que buscavam. Sócrates responde dizendo que eles a encontraram. Primeiramente, eles tiveram a ideia de que a arte política e a arte real (ou arte do rei) eram idênticas. Mas, a respeito da arte política, Sócrates afirma que ela produz coisas que não são boas nem más, e ele logo conclui que não é a arte política aquela que eles estão buscando. Críton pergunta se Eutidemo tinha proposto algo a respeito do assunto e Sócrates, confirmando positivamente a pergunta de Críton, volta a citar a conversa que ele teve com os dois sofistas e os outros.

De início, Eutidemo defende a ideia de que se alguém conhece uma coisa, este alguém conhece todas as coisas. Ele e Dionisodoro buscam demonstrar esta afirmação para Sócrates e Ctesipo. Para fazer isso, Eutidemo primeiro questiona se Sócrates conhece todas as coisas sempre através do mesmo meio. Sócrates responde que sim, e que é a partir da alma. Eutidemo pede para Sócrates não ser tão específico em sua resposta, limitando-se a responder o que foi questionado. Sócrates aceita o pedido. Ele, para pegar Dionisodoro, questiona este último perguntando onde que ele aprendeu que os homens bons são injustos. O sofista responde, dizendo que Sócrates não aprendeu isso em lugar algum. Então Sócrates diz que não conhece isso, o que refuta o argumento de que ele conhecia todas as coisas. Eutidemo diz que o irmão está arruinando o argumento, o que faz este último enrubescer.

Mais adiante, os dois sofistas buscam fazer uma demonstração na qual Sócrates e Ctesipo não concordavam: eles buscam afirmar que um homem que é pai de uma pessoa é pai de todas as pessoas ao mesmo tempo. Dionisodoro e Eutidemo também afirmavam que o cachorro de Ctesipo, que possuía filhotes, era seu pai e que tinha cãezinhos como irmãos. Um pouco mais a frente, Ctesipo ri dos dois sofistas e, diante de um questionamento de Eutidemo, diz que acredita que eles estão prestes a fazer mais uma de suas brincadeiras. Eutidemo, então, faz mais algumas perguntas à Ctesipo. Este último responde a todas as questões, julgando que o interlocutor estava falando besteiras. Uma dessas perguntas dizia respeito à questão do falar do silencioso e do silêncio do falar. Ctesipo afirma que ambas as coisas são impossíveis, e ele, então, o questiona perguntando se todas as coisas são silenciosas ou falam. Dionisodoro, no lugar do irmão, dá uma resposta para esta questão que Ctesipo afirma ser ambígua. Clínias fica muito satisfeito e ri diante dessa fala de Ctesipo. Então Sócrates questiona a risada de Clínias, perguntando-lhe por que ele riu de coisas tão belas e sérias.

Dionisodoro entra no debate e começa a questionar Sócrates dizendo que o belo é belo e o feio é feio se assim parecer a ele; em seguida o questiona agora a respeito sobre a obra particular de cada tipo de artesão, diz que se alguém executa o serviço de um cozinheiro, oleiro ou caldeireiro sobre o próprio artesão respectivamente à sua obra, este alguém está executando o trabalho que lhe é próprio. Sócrates afirma que com esta fala ele está dando os toques finais à sabedoria dos dois sofistas.

Continuando com as perguntas à Sócrates, Dionisodoro questiona a respeito dos deuses que Sócrates possuía. Ambos concordam que os deuses são animais e que, em relação aos deuses de Sócrates, ele poderia vendê-los ou tratá-los como bem entender, uma vez que eram posse de Sócrates. Com esta argumentação, Sócrates ficou emudecido, como se tivesse sofrido um golpe e sido nocauteado. Ctesipo elogia o argumento de Dionisodoro, que ainda questiona sobre o elogio dado por Ctesipo, ao perguntar se Héracles é bravo ou bravo é Héracles. Ctesipo desiste da disputa e afirma que os dois sofistas são invencíveis.

Sócrates termina de citar o diálogo com Clínias, os sofistas e Ctesipo e volta a conversar com Críton, dizendo-lhe que todos aplaudiram os dois sofistas e seu argumento com palmas. Os presentes também se exultaram e riram muito diante desse argumento.

Citando o que respondeu a Eutidemo e a Dionisodoro em relação ao fim do discurso deles, Sócrates os elogia dizendo que são poucos, como eles dois, que não se importam com a multidão, nem com pessoas importantes ou de reputação e que ao negarem que haja algo belo, ou bom, ou branco, por exemplo, ou também quando negam a diferença entre as coisas, eles simplesmente costuram a boca das pessoas e quando os dois sofistas costuram também as próprias bocas, eles se comportam de maneira encantadora e eliminam a aspereza de suas palavras.

Sócrates também responde dizendo que o mais importante de tudo é a capacidade de ensinar rapidamente o discurso deles, mas, ao mesmo tempo, diz que a técnica deles não é adequada para discussões públicas, pois esta técnica não é boa para grandes públicos, uma vez que é provável que os ouvintes aprendam o método rapidamente e não lhes deem nenhum crédito; recomenda que eles dialoguem sobre este método apenas entre si, seus discípulos ou uma terceira pessoa, esta última desde que pague uma boa quantia. Por fim, Sócrates pede para que tanto ele quanto o jovem Clínias sejam admitidos em suas aulas.

No final da obra, Sócrates diz à Críton para frequentar as aulas dos dois sofistas, mas este último diz que receia não se enquadrar no tipo de Eutidemo e decide também narrar à Sócrates algo que lhe foi dito há pouco: enquanto fazia uma caminhada, um dos homens que estavam na discussão narrada por Sócrates se dirigiu a ele dizendo que a Filosofia era algo inconsequente, imprestável e risível. Sobre este homem e seu tipo, Sócrates diz que, como dizia Pródico, ocupam a fronteira entre o filósofo e o político. Julgam-se os mais sábios dos seres humanos e se consideram moderadamente instruídos em Filosofia e Política. O que ocorre neste tipo de homem é que seus argumentos apresentam plausibilidade, não verdade. Segundo Sócrates, os homens deste tipo, situando-se entre a Filosofia e a Política e participando das duas, são inferiores a ambas no que se refere aos objetos para os quais estas artes são importantes.

Críton, ao final, pergunta a Sócrates sobre como educar seus filhos. Ele responde, dizendo para evitar o que não é devido e sobre a Filosofia, fala para ele permitir o cultivo desta, não importando se com isso se obtenha um bom ou um mal resultado; e quando ele próprio experimentar a Filosofia, se se constatar que se trata de algo precário, o orienta a afastar seus filhos e todos os outros dela. Por outro lado, se a Filosofia é como Sócrates pensa, então recomenda-se a Críton que tanto ele quanto seus filhos a cultivem destemidamente.

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