Houve, na Idade Média, uma discussão acerca da natureza dos universais, se os universais existiam fora da mente do homem ou apenas dentro da mente. Podemos definir os universais como conceitos que abarcam mais de um indivíduo particular, como exemplo podemos citar o universal veículo, que pode referir-se a um carro, ônibus ou uma moto. Assim, o universal veículo é definido por uma série de características que todos os veículos necessariamente possuem para serem consideradas como um veículo, caso não possua alguma característica do conceito veículo, não poderá ser considerado um. Podemos falar também nos conceitos de “gênero” e “espécie”: o último designa um tipo específico de objeto, enquanto que o primeiro refere-se a uma classe de objetos. Por exemplo, temos o gênero “árvore”, no qual participa deste gênero a espécie “carvalho”. Assim, podemos dizer que tanto os gêneros, quanto as espécies, são tipos de universais, as espécies classificam objetos individuais e os gêneros classificam as espécies.
Sendo assim, o debate chamado “Querela dos universais” tinha como dúvida a questão de se estes universais existem como entidades substanciais fora da mente ou se os universais existem apenas como pensamentos dentro de nossa mente. Os primeiros a desenvolverem um pensamento a respeito do tema foram Platão e Aristóteles.
Para Platão, os universais existiam no Mundo das Ideias como uma entidade metafísica (imaterial). O filósofo grego acreditava que existiam dois planos na natureza, o mundo sensível, onde todos nós vivemos e habitamos, e o Mundo das Ideias, onde habitam os universais. Para ele os universais refletem a natureza de cada objeto, e cada objeto que existe no mundo sensível incorpora de modo parcial ou imperfeito esta natureza existente no Mundo das Ideias. Esta visão é comumente chamada de “Realismo exagerado”. Outra forma de “Realismo exagerado” era a primeira solução dada pelos medievais ao problema, pois de acordo com esta segunda forma de ver o problema dos universais, o conceito na mente do indivíduo reflete a realidade da substância extramental, substância esta que existiria no objeto como forma do objeto percepcionado, sendo esta forma a essência do objeto em questão.
Para Aristóteles, os universais são reais, existem nas coisas e na mente do homem. Indivíduos que pertencem a uma mesma classe possuem substâncias iguais em suas características, mas, diferentemente de Platão, não são enformadas por um mesmo universal objetivo. Para o estagirita, os universais, isto é, os entes que enformam os objetos corpóreos tornando-os aquilo que são existem de forma imanente em cada indivíduo que é enformado por estes universais. Por exemplo, um objeto do tipo árvore possui como essência um ente incorpóreo que o enforma, tornando-o uma árvore. Se esta árvore é cortada, ela consequentemente perde a sua substância de árvore, tornando-se apenas restos de árvore.
Igualmente, Tomás de Aquino, na Idade Média, desenvolveu um pensamento a respeito deste tema. Para ele, os universais existiam antes das coisas na mente de Deus, nas próprias coisas: o universal de cachorro estaria presente em todos os cachorros, sendo a forma substancial de cada cachorro. E na mente humana, como conceitos. Para Santo Tomás, a forma substancial do objeto percepcionado é abstraído e forma-se o conceito universal, que é a abstração do que há de comum nos objetos com características semelhantes entre si. Podemos chamar esta visão de “Realismo moderado”.
Em contrapartida, um pensador que, diferentemente dos anteriores, crê na inexistência dos universais é Guilherme de Ockham. Podemos chamar esta filosofia de Nominalismo. Para os nominalistas, os universais são apenas nomes que ajudam as pessoas a agruparem objetos. Logo, não há universais, apenas coleções de objetos tomados, por meio de um processo de abstração, em suas qualidades comuns.
Por fim, existe também uma filosofia entre o Realismo e o Nominalismo: é a chamada teoria conceitualista. Um conceitualista foi o filósofo Abelardo, que acreditava que os universais existiam na mente das pessoas enquanto abstração de características comuns a indivíduos de uma mesma espécie. Para Abelardo, a abstração que nossa mente concebe a respeito dos objetos está de fato nas coisas abstraídas, mas não há uma igualdade entre o objeto abstraído e o conceito criado pelo nosso pensar.
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