Referência Bibliográfica: PLATÃO. Protágoras (ou Sofistas). In: PLATÃO. Diálogos I. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2007. p.(263-334).
Sócrates e um amigo dele se encontram e seu amigo questiona se ele estava procurando o jovem Alcibíades. Sócrates responde, dizendo que esteve com este último há pouco. Mas ele também diz que Protágoras se encontrava na cidade e ele teve uma conversa com Protágoras que Sócrates considerava o mais sábio de sua geração. O amigo pede para Sócrates relatar esta conversa e Sócrates concorda em fazê-lo.
O diálogo relatado se inicia com Hipócrates indo à casa de Sócrates para dizer que Protágoras estava na cidade. Hipócrates diz que gostaria que Sócrates dialogasse no lugar dele com Protágoras, porque ele se achava muito jovem e também por nunca ter visto Protágoras antes ou ouvido algum de seus discursos. Sócrates recomenda que eles não saiam em busca de Protágoras ainda tão cedo, mas que eles dessem um passeio juntos antes de procurá-lo. Eles começam a caminhar juntos e Sócrates decide sondar Hipócrates com algumas perguntas. Sócrates, então, questiona Hipócrates, perguntando caso ele pagasse a um médico para ter aulas com ele, o que ele esperaria se tornar a partir deste ensino. Hipócrates responde que, obviamente, seria para ele se tornar um médico. Sócrates faz a mesma pergunta com relação a escultores e Hipócrates responde, dizendo que pretenderia se tornar um escultor. Daí Sócrates faz esta mesma pergunta, agora com relação ao ensino de Protágoras: Hipócrates responde seguindo as duas respostas anteriores, que ele aprenderia de Protágoras para se tornar um sofista. Mas Sócrates questiona essa resposta, dizendo que os sofistas, na verdade, entregam ensinamentos para nutrir a alma e que estes ensinamentos podem ser bons ou ruins para a alma. A partir disso, Sócrates diz que deve-se tomar cuidado com a compra de ensinamentos que os sofistas oferecem. Mesmo assim, Sócrates e Hipócrates decidem ir à casa onde Protágoras se encontrava para dialogar com ele.
Entrando na casa de Cálias, onde Protágoras se encontrava, Sócrates diz que viu muitas pessoas, como Cármides, filho de Gláucon, Fedro de Mirrino, e estrangeiros. Sócrates e Hipócrates então se dirigem a Protágoras. Este último pergunta qual o propósito da visita a Sócrates, e ele responde, dizendo que Hipócrates deseja conquistar consideração na cidade e acredita que o melhor meio para obter esta conquista era o de se associar com ele. Protágoras aceita a proposta dos dois e daí, no início da conversa, Sócrates questiona Protágoras sobre qual o resultado que Hipócrates terá ao ter aulas com ele. Protágoras responde, dizendo que Hipócrates se tornará um homem melhor, melhor a cada aula assistida. Sócrates questiona também com relação a qual aspecto Hipócrates melhoraria. Protágoras responde que seria para torná-lo melhor nos negócios domésticos e também nos assuntos de Estado. Daí Sócrates questiona Protágoras, ao afirmar que ele não acredita que seja possível ensinar a virtude às pessoas. Ele cita dois exemplos de fracasso na tentativa de fazê-lo e afirma que muitos outros exemplos poderiam ser dados para corroborar com a sua opinião de que não é possível ensinar a virtude. Após dizer isso, Sócrates pergunta se Protágoras não poderia dar uma explicação mais clara sobre a questão da possibilidade do ensino da virtude. Protágoras decide dar esta explicação a partir de um mito.
O mito contado por Protágoras narra o seguinte: no tempo que apenas os deuses existiam, mas as raças mortais não, chegou o momento da criação dos mortais. Os deuses então moldaram as formas dos mortais utilizando terra e fogo e compostos destes dois últimos. Os deuses encarregaram Prometeu e Epimeteu a distribuírem as faculdades e capacidades apropriadas a cada mortal. Então Epimeteu implorou a Prometeu a atribuição das faculdades. Prometeu aceitou a proposta e, com isso, Epimeteu começou a distribuição das faculdades. Epimeteu distribuiu de forma que toda espécie pudesse escapar do perigo da extinção. Algumas eram grandes, outras fortes; umas eram rápidas, outras possuíam armas. Ele continuou a dar aos animais irracionais novos atributos, para que pudessem sobreviver e se reproduzir. Com relação à raça humana, ele esqueceu-se de atribuir faculdades a ela, deixando esta nua, desarmada, descalça e não acamada. Prometeu, desorientado com a situação, subtrai de Hefaístos e Atena a sabedoria nas artes práticas, além da sabedoria com relação ao fogo e as entrega ao homem. Com isso, o ser humano passou a ter sabedoria para preservar sua existência cotidiana, mas o homem permanecia sem sabedoria para a vida cívica em sociedade, sabedoria esta de posse de Zeus. Prometeu não tinha acesso à cidadela onde habitava Zeus, mas ele conseguiu entrar num prédio usado por Atena e Hefaístos, furtando deles a arte do fogo e todas as artes de Atena, entregando-as à raça humana.
Agora, o ser humano passaria a ter conhecimento de algo que antes só os deuses sabiam e, devido a uma certa espécie de afinidade com estes últimos, tornou-se o único animal que os venerava, com altares e imagens sagradas. Com as habilidades adquiridas, o homem, de início, vivia esparso e isolado, não havendo cidades. Assim, eram destruídos por animais selvagens. Para sobreviver, o homem então começou a fundar cidades. No entanto, faltava à raça humana a arte política, o que acarretou nas injustiças um ao outro. O resultado foi que o homem voltou a dispersar-se entre si, o que implicou em sua destruição. Zeus, com medo da completa extinção da humanidade, enviou Hermes para dar ao homem senso de pudor e de justiça. Hermes indagou Zeus a respeito de como distribuir essas qualidades ao ser humano. Zeus respondeu, dizendo para distribuir estes atributos a todos, um pouco a cada um, para que as cidades não fossem destruídas pelo homem. E Zeus pediu o estabelecimento da seguinte lei: o homem que não conseguir ter pudor e justiça deverá morrer, por ser uma peste para a cidade.
A partir deste mito, Protágoras diz que é por causa de se supor que todas as pessoas possuem um pouco da virtude cívica é que se ouve qualquer uma delas sobre o tema da justiça. Mas Protágoras também quer demonstrar um outro ponto. Esse ponto diz respeito ao fato de que as pessoas consideram que a virtude cívica é adquirida a partir do ensino, ao invés de acreditarem que esta virtude é natural ou de geração espontânea. Para demonstrá-lo, ele afirma que em relação às virtudes que são obtidas a partir da aplicação e ensinamento, quando alguém não a possui, este indivíduo torna-se objeto de reprovação. E ele afirma também que a virtude cívica é considerada por todos como sendo obtida através do ensino. Ele dá o exemplo das pessoas que educam seus filhos na área moral para torná-las melhores como prova para sua afirmação de que a virtude pode ser ensinada.
Protágoras também responde a questão levantada por Sócrates que questiona o porquê de filhos de bons pais não se tornarem tão bons quanto seus pais, dizendo que Sócrates deveria considerar como justa uma pessoa que a ele parece injusta, mas que foi educada pela sociedade humana se comparada a uma pessoa que sequer teve educação em sua formação. O sofista também conclui dizendo que é por causa do fato de que a virtude cívica pode ser ensinada por todos que a possuem, e não ensinada somente pelos pais de uma pessoa, que ocorre que bons filhos nascem de maus pais e maus filhos nascem de bons pais. Sócrates responde a este discurso questionando Protágoras acerca das qualidades da justiça, moderação e devoção, se estas são partes da virtude ou se elas são apenas designações de uma mesma coisa. Protágoras responde, ao dizer que essas qualidades são partes da virtude. Sócrates, através de uma argumentação, afirma que o oposto da moderação e da sabedoria é, ao mesmo tempo, a insensatez, o que colocava em xeque a afirmação de que as qualidades elencadas por Sócrates como pertencentes a virtude cívica são partes distintas da virtude cívica como um todo.
Mais adiante, era a vez de Protágoras questionar a Sócrates. O sofista decide falar sobre o tema da virtude conectada com a poesia: ele cita trechos da poesia de Simônides que, segundo Protágoras, se contradizem entre si. Os trechos referidos por Protágoras diziam que tornar-se bom é difícil e, ao invés do que pensava Pítaco, ser bom não é difícil. Mas Sócrates, ao mostrar que ser e vir-a-ser (ou tornar-se) são coisas distintas, conclui que não havia contradição nos trechos dos poemas de Simônides. Protágoras responde a Sócrates dizendo que seria um grande erro do poeta Simônides dizer que é trivial a posse da virtude. Sócrates decide analisar o poema de Simônides. Sobre este poema, ele diz que Simônides queria dizer que o homem bom é às vezes bom, às vezes mau, enquanto que o homem mau jamais pode vir a tornar-se bom. Sócrates também diz que Simônides tinha desenvolvido a poesia em questão justamente para responder ao Pítaco sobre a questão da facilidade ou dificuldade de ser bom. Sobre Simônides e os sábios em geral, Sócrates diz que eles não consideram que alguma pessoa comete um ato mau voluntariamente. Este último continua a avaliação da poesia de Simônides, citando o seguinte trecho: “É nobre tudo aquilo que a si não tem misturado o vil”. Sócrates diz que o que este trecho quer dizer é que Simônides aceita o que é mediano da parte do homem: basta ao poeta alguém que não cometa nenhum mal, afirmação que era uma crítica ao poeta Pítaco.
Na continuação do debate, Sócrates pede para que eles deixem de falar sobre poesias e se concentrem nas questões anteriormente levantadas por eles. Protágoras aceita o pedido de Sócrates e este último volta a fazer perguntas ao sofista. Sócrates questiona, novamente, se as qualidades do caráter como a sabedoria, a moderação e a coragem são nomes diferentes para um mesmo objeto ou se nomeiam coisas diferentes entre si e cada uma com uma função própria. Protágoras responde, dizendo que estas qualidades são partes da virtude e que a coragem se diferencia das demais qualidades, visto que, segundo ele, é possível haver muitas pessoas irreligiosas, injustas, ignorantes e dissolutas, e, apesar disso tudo, muito corajosas. Ao ser questionado acerca da virtude da coragem, Protágoras defende a ideia de que os corajosos são resolutos, mas que não necessariamente os resolutos são corajosos. A coragem, segundo o sofista, provém da natureza e da correta nutrição da alma.
Depois disso, Sócrates questiona Protágoras sobre se o prazer é necessariamente bom ou se pode também ser um mal. Protágoras responde, dizendo que pode ocorrer de um prazer ser um mal e que algo doloroso ser um bem. Os dois concordam com esta afirmação. Sócrates, então, inicia um exame questionando acerca do conhecimento e sua relação com a virtude. Os dois concordam que a pessoa que adquire o conhecimento do que é bom e do que é mau sempre age de acordo com o conhecimento. Mas Sócrates lembra que a maioria dos indivíduos não concordam com isso, e que, na verdade, pensam que mesmo conhecendo o que é melhor, as pessoas não se dispõem a realizar o melhor. Ele também fala sobre a questão de como uma pessoa escolhe uma ação prazerosa ou dolorosa a si mesmo: Sócrates mostra que é através da ciência da medição que as pessoas escolhem o bem ou o mal, respondendo à maioria das pessoas que é devido à falta de conhecimento que as pessoas escolhem um ato errado. Sócrates, a partir de uma argumentação, mostra que covardia é ignorância e coragem é conhecimento, ao contrário do que Protágoras teria afirmado. Ele também afirma, ao final da obra, que acredita que coragem e as outras qualidades de caráter são conhecimento, o que as tornariam ensináveis. Protágoras, por sua vez, pensa o oposto, que a virtude não é conhecimento, o que faria dela muito dificilmente ensinável. A obra termina sem uma conclusão acerca da questão da virtude, se ela é ensinável ou não.
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