Resumo indicativo da obra “Sofista” de Platão

Referência Bibliográfica: PLATÃO. Sofista (ou Do ser). In: PLATÃO. Diálogos I. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2007. p.(171-261).

No início da obra, Teodoro diz a Sócrates que, conforme combinado no dia anterior do atual encontro, eles estavam lá junto a ele (Teeteto também estava presente). Teodoro também diz que eles trouxeram um estrangeiro de Eleia. Este era, segundo Teodoro, um seguidor de Parmênides e Zenão e também era um verdadeiro filósofo. Sócrates responde, perguntando se, como diz Homero, eles não estavam trazendo algum deus e não um simples estrangeiro. Segundo Sócrates, Homero afirmava que os deuses, principalmente o deus dos estrangeiros, acompanham pessoas que são respeitosas e justas, além de observarem as ações dos homens tanto insolentes quanto cumpridores da lei. Sócrates também questiona Teodoro sobre a possibilidade de este estrangeiro ser uma espécie de deus da refutação, e Teodoro responde, dizendo que não é este o caso. Teodoro também diz que atribui a qualidade de divino a todos os filósofos. Sócrates responde, dizendo que Teodoro faz essa atribuição com acerto.

Na continuação do diálogo, Sócrates questiona o estrangeiro sobre a definição e possível distinção entre o sofista, o político e o filósofo. O estrangeiro responde, dizendo que definir o que seja o sofista não é tarefa fácil, e então ele decide, com a aprovação de Teeteto, começar definindo o que é um simples pescador. Ele começa a definir um pescador como um artista. O estrangeiro também divide os tipos de arte em duas categorias: as artes de aquisição, como a pescaria, e as artes de produção, como a agricultura. Após uma detalhada definição da arte da pescaria, ele define a arte dos sofistas como uma caçada de animais mansos, quais sejam, os seres humanos. O estrangeiro também define a arte dos sofistas – a sofística – como uma atividade de caçada aos jovens ricos e promissores que proporciona educação a estes mediante pagamento em dinheiro. Ele também dá outras duas definições para a arte da sofística: arte aquisitiva que tem a ver com a virtude; arte que pertence à classe do atacado (forma de comércio) do conhecimento. O estrangeiro e Teeteto concordam também que há mais uma forma de definir os sofistas; esta poderia ser a classe que ganha dinheiro com a arte da discussão, do debate.

Mais adiante, Teeteto e o estrangeiro debatem sobre os dois males da alma do homem, a saber, a perversidade e a ignorância. Eles concordam que a educação é a arte que combate a ignorância. O estrangeiro divide a educação em duas partes: a admoestação e a refutação. Sobre a refutação, ele diz que é a mais eficiente forma de purificação da alma, e que ela consiste em questionar um indivíduo acerca de suas opiniões equivocadas, mostrando a ele que elas são contraditórias entre si. Assim, este indivíduo percebe o erro e torna-se mais gentil com os outros e se liberta de opiniões prejudiciais sobre si próprio.

Continuando com o debate, o estrangeiro e Teeteto concordam que a “refutação da crença vazia na própria sabedoria” é a arte da sofística, esta sendo mais uma definição possível dessa arte. Teeteto, então, questiona o estrangeiro dizendo que, com tantas definições, ele fica confuso ao tentar definir o sofista e a sofística. Buscando uma nova definição para a sofística, o estrangeiro diz que o sofista ensina a arte do debate às pessoas, sendo essa mais uma possível definição. Ainda sobre os sofistas, o estrangeiro afirma que eles não podem possuir conhecimentos sobre todos os assuntos, pois, segundo ele, isto é impossível. Ele também fala dos sofistas que são apenas imitadores das coisas reais, já que saber de tudo, o que os sofistas alegam conhecer, não ser possível.

Mais adiante, Teeteto e o estrangeiro discorrem sobre a possibilidade do não-ser ser algo, ou do ser não ser. O estrangeiro afirma que é possível discursar sobre o não-ser, isto é, que é possível ter uma opinião falsa, mas que o não-ser não pode ser algo, e que o ser não pode não ser algo. Teeteto, então, diz que os sofistas diriam que eles cairiam em contradição ao afirmar a possibilidade de haver a opinião falsa, e que, deste modo, atribuiriam ser ao não-ser, o que Teeteto e o estrangeiro afirmam ser impossível. Para tentar refutar a ideia deles próprios, a saber, que o ser é e o não-ser não é, ideia que eles tomaram do antigo filósofo Parmênides, eles dois tentarão refutar a ideia deste filósofo. Para tentar efetuar esta refutação, o estrangeiro procura, primeiramente, entender o que os filósofos mais antigos chamavam de ser. A partir de uma minuciosa argumentação, Teeteto e o estrangeiro encontram problemas nas teorias que dizem que o ser é dois ou um. Depois dessa conclusão, os dois analisam as teorias que afirmam que o ser é o corpo material e nada mais além disso. Os que defendem esta teoria afirmam também que a própria alma é uma espécie de corpo. O estrangeiro propõe, como resposta aos defensores desta teoria, o conceito de que ser é potência. Potência significa, para o estrangeiro, a capacidade de modificar algo ou ser modificado por algo. O estrangeiro afirma, sobre o ser, para os materialistas, que ele de fato não é, e que só existe o vir-a-ser, e o ser é absolutamente imóvel. Sobre esta última teoria e também sobre a teoria que afirma que o ser é movimento, o estrangeiro diz que o filósofo deve rejeitar estas duas teorias e afirmar que o ser é tanto o imóvel quanto o que se move. Ainda sobre o ser, eles concluem que sobre todas as coisas que são, que algumas se mesclam entre si e outras não.

Mais a frente, Teeteto e o estrangeiro afirmam que é da ciência da dialética e, portanto, objeto de estudos do filósofo o estudo das classes e gêneros e a associação ou mescla entre eles. Para verificar se realmente o não-ser é, os dois buscam investigar qual seria o conteúdo de algumas ideias, ideias estas que poderiam ser definidas como os objetos que são, além de serem imutáveis e, portanto, eternos. Eles iniciam falando sobre as ideias de ser, movimento e repouso. Após isso, eles colocam as ideias de idêntico e diferente como necessariamente participando do ser. Como conclusão de uma argumentação, o estrangeiro diz que o ser é múltiplo e o não-ser é numericamente infinito. Mas eles dois afirmam que esta conclusão não pode ser verdadeira, uma vez que segundo Parmênides o não-ser não é.

Continuando com o diálogo, o estrangeiro afirma que a possibilidade do discurso existe apenas se há a mescla das formas entre si. Ele fala da questão do discurso porque ele quer definir o que é o sofista, pois os dois procurarão demonstrar que a falsidade existe no discurso, mostrando que o não-ser se mescla com a opinião e com o discurso, isto porque o estrangeiro afirma que o sofista nega a existência da falsidade e, logo, nega também a mescla entre o não-ser com o ser do discurso e da opinião. Para mostrar que há a falsidade no discurso, o estrangeiro propõe que seja analisada a questão dos nomes. Ele divide os nomes em dois gêneros: nomes e verbos. Ele define os nomes como sendo o signo vocal que indica os executores das ações, e define os verbos como o gênero que indica uma ação. Ele também diz que para que haja o discurso deve haver a combinação de nomes com verbos. O estrangeiro de Eleia conclui que de fato há a falsidade do discurso quando alguém diz não-seres como sendo seres.

Com esta conclusão, o estrangeiro volta a questão da definição do que é o sofista. Ele retoma a questão da divisão por gêneros, dizendo que a sofística pertence à arte da imitação, que é um tipo de arte de produção, mas produção apenas de cópias, e não das coisas em si. O estrangeiro divide a arte produtiva em divina e humana. Ele divide cada uma dessas duas artes em mais duas: arte divina e humana da criação das coisas mesmas, e a arte divina e humana da produção de cópias dessas coisas. Ele também divide a arte da produção de cópias em duas: a da produção de semelhanças e a imaginação. Sobre a arte da imaginação, ele a divide em mais duas: aqueles que imitam com conhecimento daquilo que imitam e os outros que imitam sem este conhecimento. O estrangeiro chama a primeira de imitação científica e a segunda de imitação opinativa. Ele e Teeteto decidem examinar o objeto do imitador opinativo, divisão na qual o estrangeiro diz que os sofistas estão incluídos. Ele divide o gênero do imitador opinativo em duas, o imitador franco, que suspeita não conhecer as coisas que simula conhecer para as pessoas, e o imitador dissimulado, que pensa deter o real conhecimento acerca das coisas. O estrangeiro divide o imitador dissimulado em mais duas espécies, o que profere longos discursos e o que profere discursos curtos que forçam seu interlocutor a entrar em contradição. Ele chama este último de “real sofista”. Por fim, o estrangeiro diz que está correto quem define o sofista como pertencendo ao tipo imitativo da parte da dissimulação da arte da opinião, e que pertence à parte da arte da contradição e também pertence ao gênero imaginativo da arte de produção humana de cópias. Com esta definição sobre o sofista, encerra-se o diálogo.

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