Referência Bibliográfica: PLATÃO. Teeteto (ou Do conhecimento). In: PLATÃO. Diálogos I. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2007. p.(55-170).
Euclides e Terpsion se encontram e conversam sobre Teeteto, um homem nobre e bom, segundo Euclides. Euclides fala sobre um diálogo entre Teeteto e Sócrates, diálogo que teria registrado por escrito. Terpsion pede para ler o escrito. Euclides entrega o diálogo a Terpsion e diz que este ocorreu entre Sócrates, Teeteto e o geômetra, Teodoro. Daí em diante, eles passam a ler o diálogo entre os três.
O início do diálogo se dá com Teodoro elogiando Teeteto, dizendo que este é rápido no aprendizado, gentil e corajoso. Sócrates e Teodoro pedem para Teeteto sentar-se ao lado de Sócrates. Ele aceita o pedido e, daí em diante, Sócrates e Teeteto começam a conversar entre si. De início, Sócrates diz que tem dificuldade para compreender o que é conhecimento. Ele pergunta a Teeteto o que é conhecimento e este responde que conhecimento são as coisas ensinadas por Teodoro, como a geometria, e as artes dos artesãos, como a sapataria. Sócrates elogia a resposta de Teeteto, mas depois diz que ela foi uma resposta equivocada, uma vez que foi perguntado o que era o conhecimento, e não uma enumeração dos ramos do conhecimento.
Mais adiante, Sócrates fala sobre ele ser um parteiro de ideias, mas estas ideias não nascem nele mesmo, mas nas pessoas que dialogam com ele. Assim, ele contribui, através do diálogo, para que as pessoas que conversam com ele tenham novas ideias e as desenvolvam, a ponto de poder se concluir sobre esta nova ideia se se trata de uma verdade ou não.
Prosseguindo no diálogo, Sócrates questiona novamente Teeteto sobre o que é o conhecimento, e este responde que o conhecimento não passa de percepção. Sócrates elogia a resposta de Teeteto e decide examiná-la. Ele diz que a resposta coincide com o que ensinava Protágoras, que dizia que “o ser humano é a medida de todas as coisas…”. Ele diz que não é vulgar a teoria de Protágoras, que diz que nada é uno e invariável, mas tudo está em constante movimento. Sócrates cita Heráclito e Empédocles, além de Homero na tragédia e Epicarmo na comédia, como defensores desta teoria. Mas, através de uma minuciosa argumentação, ele mostra algumas falhas desta teoria. Ainda sobre a teoria de Protágoras, Sócrates a explica, dizendo que, segundo ela, todas as coisas surgem da união mútua entre elemento ativo e elemento passivo, e que estas coisas só passam a existir no momento da união entre o primeiro e o segundo. Antes da união entre os dois elementos, ambos os elementos não existiam. Ele cita mais uma falha desta teoria, falha esta que se refere às doenças – como a loucura – e aos sonhos: se acreditarmos nesta teoria, teríamos de afirmar como verdadeiras as falsas percepções que experimentamos quando sonhamos, por exemplo.
Mais à frente, Sócrates mostra a Teeteto que conhecimento e percepção não podem ser o mesmo: ele apresenta a ideia de que uma pessoa que adquiriu conhecimento acerca de algo que viu não terá o conhecimento desta coisa num momento posterior, mesmo lembrando-se desta coisa através da memória, uma vez que apenas se lembra dela, mas não a vê. Sobre esta refutação em relação à teoria de Protágoras, Sócrates diz a Teodoro que se Protágoras estivesse presente diria que Sócrates apresentou sua argumentação a um menino e usou da timidez do menino contra a teoria dele. Teodoro concorda com esta fala de Sócrates e eles decidem avaliar a teoria de Protágoras mais uma vez, agora com mais cuidado. Nesta nova refutação, Sócrates argumenta que como Protágoras afirma que o ser humano é a medida de todas as coisas, então ele próprio teria que aceitar como verdadeiras as opiniões das pessoas que discordam dele, isto é, ele mesmo teria de aceitar sua opinião como falsa.
Na continuação do diálogo, Sócrates diz que a teoria de Protágoras afirma que as leis de um determinado Estado não podem ser mais vantajosas que as leis de outro Estado. Com relação às questões como o justo e o injusto, o sagrado e o seu oposto, esta teoria afirma que não há melhor nem pior, mas que toda opinião é verdadeira independentemente de seu conteúdo.
Sócrates também faz um comentário acerca do comportamento das pessoas que ele chama de oradores e contrasta esse comentário com uma análise acerca do modo de ser dos filósofos, sendo que os últimos são elogiados e os primeiros são criticados por ele. Ele também fala que a Divindade é inteira e perfeitamente justa, e que há dois modelos de vida instalados na realidade: o divino e o não divino. Os indivíduos que seguem o modelo não divino têm como consequência viver uma vida que corresponde ao modelo seguido – neste caso, uma vida vivida na injustiça. Já o modelo divino é sumamente bem-aventurado e é recomendado por Sócrates como o modelo a ser seguido pelas pessoas.
Mais adiante, com Sócrates ainda dialogando com Teodoro, o primeiro volta a falar sobre os defensores da teoria de que tudo é movimento, que não há nada fixo e imutável na natureza, dizendo que estes defendem, no caso da justiça, que as leis de um Estado são justas pura e simplesmente por estarem em vigor em determinado Estado. Já a respeito do conceito de utilidade, eles não concordam com a ideia de que as leis são úteis ao Estado apenas por terem sido promulgadas por ele. Sócrates novamente apresenta uma falha desta teoria, dizendo que, com relação ao futuro, é inevitável que um especialista em um determinado assunto seja mais sábio e, portanto, tenha uma opinião que é uma medida para o assunto em questão, enquanto um leigo sobre este assunto não constitui uma opinião que possa ser uma medida para tal assunto. Disso resulta que nem toda opinião a respeito do futuro é verdadeira. Sócrates também fala que talvez fosse impossível demonstrar como falsas as opiniões sobre os estados emocionais de uma pessoa. Diante disso, Sócrates e Teodoro buscam criticar a teoria de Protágoras a partir de seu princípio.
Ainda sobre esta teoria, Teodoro se lembra de seus defensores e da dificuldade de discutir o tema com eles. Teodoro, então, sugere que eles resolvam a questão como se fosse um problema de matemática. Sócrates considera esta proposta razoável e, daí em diante, passam a analisar a teoria de Protágoras mais uma vez. Sócrates diz, no início desta análise, que os antigos diziam por meio de suas poesias que “a origem de todas as coisas é Oceano e Tétis, correntes d’água, e que nada está em repouso.” Mas, após isso, ele se lembra dos pensadores que diziam o contrário disto, isto é, que o todo é imóvel. Essa última teoria era defendida por Melisso, Parmênides e outros. Sócrates continua agora avaliando a teoria de Protágoras. Ele começa dizendo que existem duas formas de movimento: uma forma relativa ao deslocamento de um ponto no espaço para outro ponto e uma segunda forma de movimento, relativa à alteração das propriedades de um determinado objeto. Sócrates diz que se todos os objetos não se movessem de ambas as formas, então teríamos de aceitar como mais correta a teoria de Melisso e Parmênides. Ele também conclui, através de uma argumentação, que o conhecimento não é percepção, porque é possível apreender o ser apenas através do raciocínio, não pelas sensações.
Depois dessa conclusão, Sócrates pede a Teeteto, novamente, definir o que é o conhecimento. Desta vez, Teeteto responde que a opinião verdadeira é conhecimento. Dialogando com Teeteto e buscando analisar esta questão, Sócrates conclui que é possível ter uma falsa opinião sobre algo, quando, por exemplo, alguém conhece e percebe algo, mas falha ao tentar encaixar as impressões corretas deste objeto percebido nele. Deste modo, o objeto conhecido não é reconhecido de maneira correta, pois a impressão do objeto torna-se diferente do objeto percebido em questão. Ele também fala da alma dos homens como um molde de cera: aqueles homens cuja cera na alma é feita de material adequado, aprendem e memorizam com facilidade e, além disso, são capazes de ter opiniões verdadeiras sobre as coisas. Porém, aquelas pessoas cuja cera na alma é macia ou dura têm dificuldades em possuir opiniões verdadeiras sobre as coisas, pois veem, ouvem e pensam erradamente. Sócrates também afirma a possibilidade de uma pessoa ter uma falsa opinião quando está apenas com pensamentos em abstrato: ele e Teeteto concordam que é possível que uma pessoa pense que a soma de cinco e sete seja igual a onze e não doze.
Ainda analisando a questão do conhecimento, Sócrates propõe a ideia de que “ter” é diferente de “possuir”: no exemplo que ele dá, uma pessoa que comprou um manto e este está a sua disposição, mas esta pessoa não está usando o manto. Sócrates diz que podemos dizer que ele possui o manto, mas não o tem. Também propõe uma comparação de que a alma é constituída de um aviário com todo tipo de aves, dizendo que cada ave constitui um tipo de conhecimento. A partir disto, Sócrates afirma que o conhecimento é a ave que foi adquirida e está presa no aviário de uma pessoa. Ele usa este exemplo do aviário para mostrar que, um matemático, por exemplo, pode estar a procurar do número doze, mas, no seu interior, incorrer em erro e capturar o número onze. Assim, ele mostra que é possível haver a opinião falsa, tanto quanto a opinião verdadeira, e que, de fato, não é possível não conhecer o que já se conhece. Sobre esta última conclusão, Sócrates diz que há algo desastroso que coloca em xeque esta ideia: supor que o intercâmbio dos tipos de conhecimento resulte sempre em falsa opinião. Supondo isto, Sócrates conclui que uma pessoa que conheça algo seja ignorante justamente desse algo, através de seu conhecimento. Em segundo lugar, essa pessoa julga que esse algo é uma outra coisa e que essa outra coisa é esse algo. O que, diz ele, são duas conclusões irracionais.
Sem conseguir definir o que é a falsa opinião, Sócrates questiona Teeteto mais uma vez sobre o que é o conhecimento. Então, Teeteto responde que conhecimento é a opinião verdadeira. Sócrates fala sobre a arte dos oradores e advogados, que conseguem persuadir pessoas a terem opiniões determinadas. A partir disso, Sócrates diz que a opinião verdadeira e o conhecimento não são a mesma coisa, pois ele diz que se fossem a mesma coisa, nem o melhor dos juízes seria capaz de alcançar uma opinião verdadeira sem possuir o conhecimento. Posto isso, Teeteto então relembra de alguém que dizia que o conhecimento é a opinião verdadeira associada ao discurso racional. Sócrates decide examinar esta afirmação. Ele diz que as associações dos elementos primordiais aos seus nomes é conhecimento, ao passo que deter a verdade sobre os elementos sem possuir o discurso racional que os expressa não é ter conhecimento. Sócrates também diz que há um ponto insatisfatório nesta ideia, que ele diz ser o ponto mais sutil de todos: a afirmação de que os elementos são incognoscíveis, enquanto a classe de associações é cognoscível. Sócrates usa o exemplo das letras e das sílabas para mostrar que uma associação de partes é diferente da soma destas partes, e isto serve para letras e sílabas e para todas as outras coisas. Ele, a partir disto, conclui que a sílaba é uma forma indivisível, e conclui que os elementos primordiais são muito mais claramente conhecidos do que as formas compostas.
Mais adiante, Sócrates procura entender o que é discurso racional, ou explicação racional. Ele afirma que a explicação racional é o conjunto de características que diferem um objeto dos demais. A partir disto, ele volta a falar sobre a questão da opinião correta e a adição da explicação racional a esta, que seria justamente a ideia do que é conhecimento que eles discutiam. Sócrates conclui, sobre a definição de conhecimento, que nem percepção, nem a opinião verdadeira, tampouco a opinião verdadeira associada à explicação racional são conhecimento. Teeteto concorda com ele no final da obra. A obra termina sem uma definição do que é o conhecimento.
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